Não Existe Material Sustentável. Existe Material Adequado ao Contexto.

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O material mais sustentável pode não ser a melhor escolha…

Uma das perguntas que mais recebo é: “Qual é o material mais sustentável para construir?”

A resposta costuma surpreender: Depende.

Essa talvez não seja a resposta mais confortável para quem procura uma solução pronta, mas é a mais honesta.

Na arquitetura, dificilmente uma única resposta serve para todos os projetos. O desempenho de um material depende do lugar onde será utilizado, da mão de obra disponível, da logística de transporte, do clima e da forma como a construção será executada.

É por isso que desconfio sempre que encontro listas com “os dez materiais mais sustentáveis da arquitetura”. Elas simplificam um tema que, na prática, exige análise técnica.

O caminho percorrido pelo material também importa.

Imagine duas situações. Na primeira, um tijolo ecológico precisa percorrer mais de mil quilômetros até chegar ao canteiro de obras.

Na segunda, um bloco produzido na própria região está disponível a poucos quilômetros do terreno, utiliza matéria-prima local e pode ser executado por profissionais que já dominam essa técnica.

Qual das duas opções gera menor impacto?

A resposta não depende apenas do tipo de material. Ela depende do conjunto da obra.

O transporte consome combustível, aumenta custos e amplia a emissão de gases associados à construção. Em alguns casos, essa logística pode reduzir parte dos benefícios ambientais atribuídos ao próprio material.

Por isso, sustentabilidade também passa por analisar distâncias.

O mesmo material pode funcionar muito bem em um projeto e muito mal em outro.

Essa é uma das características mais interessantes da arquitetura. Não existe uma solução que responda igualmente bem a todos os contextos.

Uma cobertura adequada para uma região de clima seco pode apresentar um desempenho completamente diferente em uma área litorânea com elevada umidade e maresia.

Da mesma forma, um sistema construtivo eficiente em uma cidade pode encontrar dificuldades de execução em outra, simplesmente porque não existe mão de obra qualificada para utilizá-lo. Projetar exige compreender essas diferenças.

Sustentabilidade também considera quem vai construir.

Quando um projeto especifica materiais ou técnicas pouco conhecidas na região, surgem novos desafios. A execução tende a exigir treinamento específico, aumenta o risco de erros e, muitas vezes, eleva os custos da obra.

Em alguns casos, utilizar uma solução amplamente dominada pelos profissionais locais produz um resultado mais consistente, mais econômico e com menor desperdício de materiais. Sustentabilidade também significa construir com inteligência, respeitando a realidade de cada lugar.

Arquitetura vernacular ainda tem muito a ensinar.

Antes mesmo de existir a expressão “arquitetura sustentável”, muitas construções já respondiam ao clima utilizando recursos disponíveis na própria região.

Em diferentes partes do Brasil, materiais, técnicas construtivas e soluções arquitetônicas foram sendo desenvolvidos ao longo de décadas para enfrentar o calor, a umidade, os ventos e as características do terreno.

Esse conhecimento continua atual. Não porque deva ser reproduzido exatamente como era feito no passado, mas porque revela uma lógica importante: compreender o território antes de definir a solução.

A tecnologia amplia nossas possibilidades. Ela não elimina a necessidade de interpretar o lugar.

O orçamento também faz parte da sustentabilidade.

Existe uma ideia de que sustentabilidade e orçamento caminham em direções opostas.

Na prática, um projeto só pode ser considerado sustentável se também for viável para quem irá construí-lo.

Especificar soluções incompatíveis com a realidade financeira da obra costuma gerar substituições durante a execução, atrasos e desperdícios.

Por outro lado, quando o projeto nasce alinhado ao orçamento disponível, as decisões se tornam mais consistentes e a construção acontece com maior previsibilidade. A sustentabilidade também depende dessa coerência.

O papel do arquiteto não é escolher o material da moda.

Uma das funções mais importantes do projeto é analisar variáveis que nem sempre são percebidas por quem está construindo.

O arquiteto avalia o clima, a orientação solar, os ventos predominantes, a disponibilidade de materiais, os custos de manutenção, a vida útil da construção e as necessidades de quem irá utilizar aquele espaço.

O objetivo não é encontrar o material mais famoso. É encontrar a solução que faça sentido para aquele projeto. Cada obra apresenta desafios diferentes. Cada terreno pede respostas diferentes. Cada família utiliza a casa de uma maneira diferente. É justamente essa combinação que torna cada projeto único.

Sustentabilidade não nasce de uma lista de materiais considerados corretos.

Ela nasce da capacidade de tomar boas decisões.

Um material pode ser excelente em determinada região e inadequado em outra. Uma tecnologia pode reduzir impactos ambientais em um projeto e aumentar custos desnecessários em outro.

A arquitetura sustentável exige equilíbrio entre desempenho, disponibilidade, orçamento, execução e contexto.

Talvez essa seja uma das maiores responsabilidades do arquiteto: compreender todas essas variáveis antes de definir o caminho que a obra seguirá.

Sobre o autor
Moisés Góes é arquiteto especializado em arquitetura sustentável, arquitetura biofílica e estratégias bioclimáticas. Em seus projetos, busca conciliar desempenho, conforto, viabilidade construtiva e respeito às características de cada lugar, entendendo que boas escolhas de projeto dependem do contexto e não de fórmulas prontas.

Foto de Moisés Góes

Moisés Góes

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