Durante muito tempo, construir uma casa grande foi sinônimo de sucesso. Quanto maior a área construída, maior parecia ser a conquista. O mercado imobiliário reforçou essa ideia durante décadas, e ela ainda influencia muitas decisões.
Mas basta conversar com quem já mora em uma casa muito maior do que precisa para perceber que essa relação nem sempre se confirma.
Ambientes pouco utilizados, corredores extensos, quartos fechados durante boa parte do ano e uma rotina constante de limpeza e manutenção fazem parte da realidade de muitos imóveis. A sensação de amplitude existe, mas nem sempre ela vem acompanhada de mais conforto ou de uma melhor experiência de morar.
Talvez a pergunta mais importante não seja: Quantos metros quadrados uma casa possui?
Talvez seja: como esses metros quadrados contribuem para a vida de quem mora nela?
Mais área construída nem sempre significa mais qualidade de vida e toda construção consome recursos.
Cada metro quadrado exige estrutura, fundação, cobertura, revestimentos, instalações elétricas e hidráulicas, mão de obra, transporte de materiais e energia para ser executado. Depois da obra concluída, essa área continuará exigindo manutenção, limpeza, pintura…
Construir além do necessário aumenta não apenas o investimento inicial, mas também os custos ao longo de toda a vida útil da residência.
Isso não significa que casas grandes sejam um problema.
Existem famílias numerosas, terrenos amplos e programas de necessidades que justificam áreas maiores. O ponto é outro: o tamanho precisa responder à forma como aquela família vive, e não apenas a uma expectativa de mercado ou a um desejo de impressionar.
A arquitetura do suficiente
Gosto de pensar em um conceito que poderia orientar muitos projetos: a arquitetura do suficiente.
Não se trata de construir menos por economia nem de defender casas pequenas como regra e sim, trata-se de construir aquilo que realmente melhora a vida das pessoas.
Um ambiente amplo faz sentido quando será vivido. Uma varanda ganha valor quando se torna parte da rotina da família. Um escritório bem localizado pode transformar a dinâmica de quem trabalha em casa. Da mesma forma, um quarto de hóspedes utilizado apenas uma vez por ano talvez não precise ocupar uma área tão generosa.
Projetar é estabelecer prioridades!
Nem todo metro quadrado gera qualidade de vida na mesma proporção. Existem metros quadrados que valem mais do que outros. Essa afirmação pode parecer estranha em um primeiro momento, mas faz sentido quando observamos o cotidiano.
Uma varanda utilizada todas as tardes costuma ser muito mais valiosa do que uma segunda sala que permanece fechada durante meses e com a boa e velha mesa de jantar nunca usada.
Uma cozinha integrada pode fortalecer a convivência familiar de forma muito mais significativa do que um hall monumental.
Um espaço bem iluminado e ventilado naturalmente costuma ser mais agradável do que um ambiente maior, mas dependente de iluminação artificial e ar-condicionado durante todo o dia.
A qualidade da arquitetura está menos relacionada à quantidade de área construída e muito mais à maneira como essa área é utilizada.
Sustentabilidade também passa pelo tamanho da construção.
Quando pensamos em arquitetura sustentável, é comum imaginar painéis solares, reaproveitamento de água da chuva ou materiais de baixo impacto ambiental.
Essas soluções são importantes, mas existe outra questão que merece atenção: Será que precisamos construir tudo aquilo que desenhamos?
Cada metro quadrado desnecessário representa mais concreto, mais aço, mais revestimentos, mais consumo de água durante a obra e mais recursos naturais utilizados.
Construir apenas o necessário também é uma decisão sustentável.
Não porque a casa deva ser pequena, mas porque desperdício de área construída também é desperdício de recursos.
O projeto começa muito antes da planta baixa e um bom projeto não nasce da soma de ambientes. Ele nasce da compreensão da rotina de quem vai morar naquele lugar. Uma família que gosta de cozinhar talvez precise investir mais na cozinha do que em uma sala de televisão ou quem recebe amigos com frequência provavelmente aproveitará melhor uma varanda confortável do que um segundo estar, da mesma forma que alguém que trabalha em casa terá necessidades completamente diferentes de quem passa o dia fora.
Essas respostas não aparecem em tabelas prontas nem em plantas copiadas da internet. Elas surgem durante as conversas, na escuta e na compreensão dos hábitos de cada cliente. É por isso que dois terrenos iguais dificilmente deveriam receber projetos iguais.
A casa precisa acompanhar a vida.
Existe outro aspecto que merece atenção…Muitas residências são planejadas para um momento específico da vida, mas permanecem ocupadas durante décadas.
Os filhos crescem, a rotina muda, algumas necessidades desaparecem e outras surgem. Pensar em flexibilidade desde o projeto permite que a casa acompanhe essas transformações sem exigir grandes reformas no futuro.
Espaços versáteis costumam envelhecer melhor do que ambientes excessivamente especializados.
Quando a imagem se torna mais importante que a experiência
As redes sociais ampliaram nosso repertório visual. Nunca foi tão fácil encontrar referências de arquitetura produzidas em qualquer lugar do mundo. Ao mesmo tempo, também se tornou comum admirar projetos concebidos para causar impacto imediato nas fotografias.
Grandes vazios, fachadas monumentais e ambientes espetaculares costumam chamar atenção rapidamente.
Mas uma casa não é vivida por alguns segundos. Ela será ocupada todos os dias.
O conforto de uma boa ventilação, a entrada da luz natural na medida certa, a facilidade de circulação, a relação entre os ambientes e a sensação de bem-estar permanecem muito depois de a novidade da estética passar.
É justamente aí que arquitetura e imagem deixam de ser a mesma coisa.
Assim sendo, construir uma casa maior não garante uma casa melhor.
O que define a qualidade de um projeto é sua capacidade de responder às necessidades de quem irá habitá-lo, utilizando os recursos de forma inteligente e criando espaços que façam sentido no cotidiano.
Uma arquitetura bem planejada encontra equilíbrio entre conforto, funcionalidade, sustentabilidade e viabilidade econômica.
Nem sempre esse equilíbrio está em acrescentar metros quadrados e sim em dar propósito a cada um deles.
Sobre o autor
Moisés Góes é arquiteto e acredita que um projeto vai muito além da estética. Seu trabalho parte da escuta, da compreensão da rotina e das necessidades de cada cliente para criar espaços confortáveis, eficientes e duradouros. Com foco em arquitetura sustentável, arquitetura bioclimática e design biofílico, desenvolve projetos que valorizam a experiência de habitar e a relação entre as pessoas e os lugares onde vivem.




Uma resposta
Depois de experienciar viver em um casa grande em que dois cômodos ficam praticamente inutilizados e em um ap pequeno, ou melhor, que atende as minhas necessidades, vejo o quanto tudo isso que você trouxe é importante e crucial na hora de pensar um projeto. E perceber que você com arquiteto tem esse olhar para com seus projetos, faz a diferença como profissional. Parabéns!