Eleições e sustentabilidade: o futuro que escolhemos construir hoje

Compartilhe

Em época de eleição, é natural que as conversas se concentrem na economia, na segurança, no emprego e em tantas outras questões que afetam diretamente a nossa vida. Tudo isso importa, claro. Mas existe uma pergunta que também deveria fazer parte das nossas escolhas: que futuro estamos ajudando a construir quando escolhemos quem vai tomar as decisões pelo país?

Quando falo de sustentabilidade, não estou falando apenas de energia solar, materiais ecológicos ou casas que consomem menos energia. Estou falando das condições necessárias para que as próximas gerações tenham água limpa, ar respirável, cidades menos hostis e um ambiente capaz de sustentar a vida. E isso depende, em grande parte, das decisões que tomamos coletivamente hoje.

Sustentabilidade também é uma escolha política

As políticas públicas influenciam diretamente a maneira como ocupamos o território, protegemos nossas florestas, cuidamos dos rios, produzimos energia, construímos cidades e destinamos os resíduos que geramos. Uma decisão tomada hoje pode determinar se uma área será preservada ou desmatada, se uma comunidade terá acesso à infraestrutura básica ou continuará vulnerável, se uma cidade estará mais preparada para as chuvas intensas e as ondas de calor ou seguirá repetindo os mesmos erros.

Por isso, não consigo enxergar a sustentabilidade como uma pauta isolada, muito menos como um assunto restrito a quem trabalha com meio ambiente. Ela atravessa a economia, a saúde, a habitação, a educação e a qualidade de vida. Quando uma política permite a destruição de ecossistemas em nome de um benefício imediato, por exemplo, os prejuízos não desaparecem quando termina um mandato. Muitas vezes, eles ficam para quem nem sequer teve a oportunidade de participar daquela decisão.

É por isso que considero importante olhar para além das promessas de campanha. Vale observar o histórico, as prioridades, os compromissos e as propostas de cada candidato. O que essa pessoa defende para a proteção ambiental? Como pretende enfrentar o desmatamento? Qual é sua posição sobre os territórios indígenas e as comunidades tradicionais? O que propõe para o saneamento, a gestão dos resíduos, a mobilidade urbana e a adaptação das cidades às mudanças climáticas? São perguntas concretas, que ajudam a avaliar se o discurso sobre o futuro encontra respaldo nas decisões que essa pessoa pretende tomar.

O planeta já está dando sinais

Não precisamos imaginar um cenário distante para entender a urgência dessas escolhas. As ondas de calor, as secas, as chuvas extremas, os incêndios e a perda de biodiversidade já afetam diferentes regiões do mundo, inclusive o Brasil. O fenômeno El Niño pode intensificar determinados extremos climáticos, enquanto o aquecimento global provocado pelas atividades humanas amplia riscos e agrava impactos em muitas regiões.

Não existe uma solução única para problemas dessa dimensão. Precisamos reduzir as emissões de gases de efeito estufa, proteger os ecossistemas, combater o desmatamento, recuperar áreas degradadas e preparar nossas cidades para condições climáticas cada vez mais exigentes. Também precisamos pensar na forma como construímos. A construção civil consome recursos naturais, movimenta grandes quantidades de materiais e gera resíduos. Quando uma obra ignora o contexto, desperdiça recursos ou exige um consumo excessivo de energia durante toda a vida útil da edificação, seus impactos vão muito além do terreno onde foi construída.

Na arquitetura, sabemos que muitas decisões tomadas no início de um projeto influenciam o que virá depois. A orientação solar, a ventilação natural, a escolha dos materiais, a preservação da vegetação e o aproveitamento da água podem reduzir impactos e melhorar a vida de quem ocupa aquele espaço. Mas também sabemos que o trabalho de um arquiteto, por melhor que seja, não substitui políticas públicas consistentes. É difícil construir cidades sustentáveis sem planejamento urbano, saneamento, transporte público de qualidade, fiscalização ambiental e proteção das áreas naturais.

Que planeta queremos deixar para as próximas gerações?

Essa talvez seja a pergunta mais importante. Quando pensamos nas crianças que estão crescendo agora, é difícil não imaginar como será o mundo em que elas vão viver. Terão acesso à água? Vão conseguir circular por cidades arborizadas, com espaços públicos agradáveis e temperaturas suportáveis? Encontrarão rios vivos, florestas preservadas e uma biodiversidade que não exista apenas em fotografias?

Não temos como controlar todas as variáveis do futuro, mas temos responsabilidade sobre muitas das decisões que o moldam. Preservar territórios indígenas, por exemplo, não é apenas respeitar direitos fundamentais. É também reconhecer a importância de povos e comunidades que mantêm relações históricas com os ecossistemas. Combater o desmatamento não é impedir todo desenvolvimento, mas entender que crescimento econômico e destruição ambiental não precisam caminhar juntos. E tratar corretamente os resíduos não deveria ser um diferencial de uma obra consciente, mas parte do compromisso básico de qualquer empreendimento.

O mesmo vale para a maneira como planejamos nossas cidades e nossas casas. Não faz sentido falar em qualidade de vida enquanto se eliminam árvores sem planejamento, se ocupam áreas de risco ou se constroem espaços que dependem de um consumo elevado de energia para oferecer o mínimo de conforto. Precisamos de desenvolvimento, sim, mas de um desenvolvimento que considere seus custos ambientais e sociais, inclusive aqueles que só aparecerão daqui a alguns anos.

O voto também constrói o amanhã

Não escrevo isso para dizer em quem alguém deve votar. A escolha é individual, e a democracia depende justamente da possibilidade de pensarmos de maneiras diferentes. Mas acredito que essa escolha merece ser feita com atenção ao que está em jogo, considerando não apenas as necessidades imediatas, mas também as consequências das decisões públicas ao longo do tempo.

Podemos discordar sobre os caminhos, as prioridades e as soluções. O que não deveríamos fazer é tratar a preservação ambiental como um detalhe que pode ficar para depois, como se o planeta tivesse recursos infinitos e como se os danos pudessem ser desfeitos a qualquer momento.

Na arquitetura, aprendi que construir bem exige pensar além da entrega da obra. Uma casa precisa continuar oferecendo conforto, segurança e qualidade de vida depois que os desenhos deixam de existir. Com as escolhas políticas, acontece algo parecido: seus efeitos não terminam no dia da eleição. Eles aparecem nas cidades, nas florestas, na água que consumimos, no ar que respiramos e nas oportunidades que deixamos para quem vem depois.

Talvez não consigamos resolver todos os problemas ambientais de uma vez. Mas podemos escolher não ignorá-los. Podemos cobrar compromissos, acompanhar decisões, rever hábitos e apoiar políticas que tratem a preservação, a justiça social e o futuro como prioridades reais.

No fim, a pergunta não é apenas qual país queremos ter nos próximos anos. É também em que condições queremos que nossos filhos, netos e as próximas gerações possam viver. Porque o futuro não começa quando eles crescerem. Ele está sendo construído agora, pelas escolhas que fazemos e pelas decisões que aceitamos deixar nas mãos de quem nos representa.

Sobre o autor: Moisés Góes é arquiteto especializado em arquitetura sustentável e consciente. À frente do escritório Moisés Góes Arquitetura, desenvolve projetos que buscam equilibrar conforto, eficiência, estética e respeito ao meio ambiente, considerando a relação entre as pessoas, as construções e o lugar onde vivem.

Foto de Moisés Góes

Moisés Góes

Respostas de 2

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *