INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E ARQUITETURA: O QUE PERDEMOS QUANDO TUDO VIRA IMAGEM?

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Inteligência Artificial e Arquitetura: O Que Perdemos Quando Tudo Vira Imagem?

Há algumas semanas, assisti a um episódio do podcast CNPJ no Divã, apresentado por Facundo Guerra, com participação de André Carvalhal. Em determinado momento da conversa, uma frase interrompeu completamente minha atenção.

“O humano é o novo luxo.”

O episódio continuou, mas aquela ideia permaneceu comigo durante dias. Desde então, tenho pensado no que essa afirmação significa para a arquitetura.

A inteligência artificial já faz parte da rotina de muitos escritórios. Ela organiza referências, acelera estudos preliminares, produz imagens impressionantes e permite testar possibilidades que antes consumiam horas de trabalho. Sob esse aspecto, representa um avanço importante.

De certa forma, ela ocupa um papel semelhante ao que o Pinterest desempenhou durante anos. Antes, reuníamos referências produzidas por fotógrafos, arquitetos e artistas. Agora, basta escrever algumas linhas para que uma imagem completamente nova apareça na tela.

A diferença é que, muitas vezes, essas imagens já não nascem de uma arquitetura existente. Elas são produzidas para existir apenas como imagem.

É nesse ponto que começo a enxergar uma mudança.

Durante muito tempo, a representação era consequência do projeto. Primeiro vinha a compreensão do terreno, do clima, da estrutura, do orçamento e da rotina de quem ocuparia aquele espaço. Depois surgiam os desenhos, os modelos e as perspectivas.

Hoje, em muitos casos, a lógica parece se inverter. A imagem aparece antes da arquitetura. E, em algumas situações, ela passa a ser o próprio projeto.

As redes sociais acabam reforçando esse movimento. Somos constantemente expostos a cozinhas impecáveis, salas cinematográficas e fachadas que parecem saídas de um filme. Elas chamam atenção em poucos segundos e cumprem muito bem esse papel.

O problema começa quando essa estética deixa de dialogar com a construção, com o clima e com a vida cotidiana.

Talvez estejamos assistindo ao nascimento de uma arquitetura pensada para o consumo de imagem.

Espaços que funcionam perfeitamente em uma renderização, mas que nem sempre enfrentaram as perguntas que um projeto inevitavelmente precisa responder.

Como controlar a incidência do sol? De onde virá a ventilação? Como essa cobertura será construída? O orçamento comporta essa solução? Como essa família realmente utiliza a casa?

Uma imagem não responde a essas perguntas…Ela apenas sugere que existe uma resposta. A imagem nunca foi suficiente, existe uma diferença enorme entre admirar um ambiente e viver dentro dele. Uma fotografia não mostra a temperatura de uma sala às quatro horas da tarde, ela não revela como o vento atravessa a casa durante o verão. Não permite perceber a acústica de um ambiente, a sensação térmica de um piso ou o percurso da luz ao longo do dia e também não registra aquilo que costuma ser mais importante. A tranquilidade de uma casa bem ventilada e o conforto de um ambiente onde não é preciso fechar todas as cortinas para suportar o calor, a mesa onde uma família volta a jantar reunida, a varanda que finalmente passou a ser usada no fim da tarde… Essas experiências dificilmente cabem em uma única imagem.

Elas aparecem apenas quando a arquitetura deixa de ser observada e passa a ser vivida.

Foi justamente nesse momento do podcast que outra reflexão chamou minha atenção. André Carvalhal e Facundo Guerra comentavam que boa parte dos produtos consumidos no futuro poderá ser criada por inteligência artificial simplesmente porque será mais barato, mais rápido ou até gratuito.

Enquanto isso, aquilo que carregar tempo, autoria e trabalho humano tende a se tornar mais raro. E, por consequência, mais caro, quando a boa arquitetura vira privilégio

Essa ideia me levou a uma preocupação que vai além da tecnologia.

Se esse cenário realmente se consolidar, talvez parte da população passe a viver em espaços concebidos por algoritmos, reproduzidos em larga escala e adaptados apenas para atender indicadores de desempenho, custo e apelo visual.

Ao mesmo tempo, outra parcela continuará contratando arquitetos, paisagistas, designers e artistas para desenvolver projetos personalizados, construídos a partir da escuta, da sensibilidade e das particularidades de cada família.

Não será apenas uma diferença estética, será uma diferença na experiência cotidiana de morar.

O lugar onde vivemos influencia nossa saúde, nosso descanso, nossa concentração, nossas relações e até nossa disposição para permanecer em casa. Quando essa qualidade passa a depender exclusivamente do poder aquisitivo, a discussão deixa de ser tecnológica e ela também passa a ser social!

A inteligência artificial vai substituir os arquitetos? ( Não acredito que essa seja a pergunta mais interessante.)

A inteligência artificial certamente continuará modificando a maneira como projetamos. Ela deverá assumir tarefas repetitivas, produzir simulações cada vez mais precisas e ampliar o repertório disponível para arquitetos e clientes.

Tudo isso pode tornar o processo de projeto melhor, mas continuo pensando que existe uma etapa anterior a qualquer software.

Um cliente raramente pede apenas aquilo que diz e quando alguém insiste em uma varanda, talvez esteja falando do desejo de reunir os amigos com mais frequência. Quando pede uma cozinha ampla, muitas vezes está lembrando dos almoços de domingo da infância. Quando fala sobre silêncio, talvez esteja procurando descanso depois de anos vivendo em uma rotina exaustiva.

Nenhum prompt consegue identificar essas camadas sozinho.

Porque elas aparecem na conversa, na escuta, nas pausas, naquilo que nem sempre é dito de forma explícita.

É nesse território que continuo acreditando existir um espaço profundamente humano para a arquitetura.

A inteligência artificial provavelmente continuará transformando a maneira como desenhamos. Mas ainda acredito que a boa arquitetura nasce antes do primeiro traço. Ela começa quando alguém dedica tempo suficiente para compreender como outra pessoa deseja viver.

Sobre o autor

Moisés Góes é arquiteto e acredita que um projeto vai muito além da estética. Seu trabalho parte da escuta, da compreensão da rotina e das necessidades de cada cliente para criar espaços confortáveis, eficientes e duradouros. Com foco em arquitetura sustentável, arquitetura bioclimática e design biofílico, desenvolve projetos que valorizam a experiência de habitar e a relação entre as pessoas e os lugares onde vivem.

Foto de Moisés Góes

Moisés Góes

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